Lucas Magdiel

Notas

Zumbis, 1968 e a tradução de A Noite dos Mortos-Vivos

7 de março de 2014

Em março de 2014, quando a DarkSide Books lançou a minha tradução de A Noite dos Mortos-Vivos, de John Russo, respondi por e-mail a algumas perguntas do jornalista Thiago Jansen para a revista digital O Globo a Mais. A matéria, intitulada “Um cult do horror de volta à vida”, aproveitou apenas trechos; a seguir, publico as respostas na íntegra, com uma revisão feita em 2026.

Qual a sua avaliação da importância para a cultura pop da obra de Russo e Romero? Por que acredita que ela tenha se tornado uma obra cult?

É um divisor de águas na cultura pop porque foi ali que nasceu o zumbi moderno. Russo e Romero fundiram com maestria características de vários mitos, como vampiros, lobisomens e o zumbi do folclore vodu haitiano, de onde veio o termo para batizar uma criatura que, até então, jamais saíra das tumbas cambaleando para devorar carne humana em escala apocalíptica.

A Noite dos Mortos-Vivos serviu de matriz direta para incontáveis produções posteriores: da franquia de jogos Resident Evil aos quadrinhos de The Walking Dead, passando pelo romance Guerra Mundial Z, de Max Brooks.

Lançado de forma independente em 1968, o filme foi um estrondo de bilheteria e fundou um subgênero com gramática visual e regras próprias que reconhecemos de imediato até hoje. O fato de ter caído acidentalmente em domínio público logo na estreia (por uma falha de registro de direitos da distribuidora) acelerou ainda mais sua circulação mundial, gerando refilmagens, releituras e linhas de sequências tocadas separadamente por cada um dos autores.

Com o tempo, o filme virou cult, status concedido a obras seminais de forte impacto cultural. Esse peso histórico se confirma pelo próprio resgate da DarkSide ao publicar este livro no Brasil, baseado no roteiro original e até então inédito por aqui. Uma obra cult funciona como uma galeria de espelhos: é um convite permanente à autorreflexão. O apocalipse de Russo e Romero nos obriga a encarar nossa finitude, nossa bússola moral e a solidez das instituições sociais quando tudo ao redor desmorona.

A Noite dos Mortos-Vivos não é apenas uma história de terror, mas possui bastante densidade, com críticas sociais importantes para a época em que foi lançado. Quais são alguns desses temas?

Como todo produto cultural de fôlego, o filme respira o ar de seu tempo, em especial a Guerra do Vietnã. A violência explícita e visceral dialogava de perto com as imagens cruas do conflito que invadiam os telejornais americanos toda noite. O zumbi de Russo e Romero personificava o horror bélico, dando forma a um inimigo numeroso, implacável e desumanizado.

Os anos 1960 também foram sacudidos pela luta dos direitos civis. Martin Luther King Jr. havia sido assassinado em abril de 1968, poucos meses antes da estreia. A escalação de Duane Jones, um ator negro, para o papel do herói e protagonista Ben gerou uma tensão palpável nas salas de cinema. No romance adaptado do roteiro não há menção explícita à cor da pele do personagem (o que indica que a escolha no elenco não foi calculada para panfletar), mas a presença de um homem negro liderando brancos em cena adquiriu um simbolismo avassalador que potencializou a força dramática do desfecho.

Há ainda os ecos da corrida espacial e a histeria nuclear da Guerra Fria: na história, a justificativa pseudocientífica para o levante dos mortos é a radiação trazida por uma sonda espacial da NASA que retornava de Vênus e foi abatida na atmosfera.

Houve algum desafio específico no processo de tradução da obra?

O desafio é a regra do jogo na tradução literária, na qual você verte não apenas palavras, mas toda a cadência, o timbre e a atmosfera construídos pelo autor. Por ser um roteiro romanceado, o texto depende fortemente de ritmo descritivo e diálogos afiados.

As descrições são minuciosas e quase cirúrgicas na violência visual. A dificuldade consistia em decodificar a cena na imaginação, captar o ponto de vista narrativo e recriá-la em português com a mesma fluidez e precisão anatômica. No processo, virei quase um perito informal em balística, armas brancas, mutilações e eviscerações (pode embrulhar o estômago nos primeiros capítulos, mas logo o ofício nos faz encarar tudo sob a ótica da técnica e da fantasia).

Havia também o desafio de encontrar sinônimos: de quantas formas diferentes dá para nomear um morto-vivo ao longo de duzentas páginas? Aliás, a palavra “zumbi” quase não aparece no livro e não é dita uma única vez no filme de 1968, justamente para preservar o espanto genuíno dos personagens diante do inexplicável.

Já nos diálogos, o trabalho foi dosar as marcas de classe, procedência regional e sotaques dos Estados Unidos dos anos 1960 para o português sem soar caricato nem engessado, recorrendo por vezes a soluções mais neutras para manter a verossimilhança.

Por que você acha que os zumbis continuam sendo ícones tão fortes na cultura pop e têm ganhado tanto fôlego nos últimos anos?

Pela mesma razão que mantém vampiros e lobisomens vivos no imaginário coletivo: eles mobilizam medos ancestrais ligados à morte, ao contágio e à perda da nossa humanidade. Só que o zumbi contemporâneo é mais maleável e aterrorizante porque encarna o colapso coletivo. O cenário pós-apocalíptico característico dessas narrativas é uma tela em branco ideal para radiografar a sociedade sob pressão.

A virada recente de popularidade deve muito a The Walking Dead. Ao beber na fonte de Romero, a série investiu pesado na psicologia dos sobreviventes e no drama interpessoal, tratando de fraturas contemporâneas como o isolamento, a incomunicabilidade e o esgarçamento ético. As pessoas se fascinam em ver como indivíduos comuns reagem em situações-limite: é uma espécie de experimento social apocalíptico.

E há também quem aprecie o elemento cômico do absurdo. O zumbi tem um lado naturalmente grotesco: roupas em farrapos, marcha claudicante, grunhidos e braços estendidos. As Zombie Walks mostram bem essa apropriação lúdica. Desde a coreografia clássica de Michael Jackson em Thriller até paródias brilhantes como o filme Zombieland e o jogo Plants vs. Zombies, o gênero soube transitar com desenvoltura entre o pesadelo e o humor.