Günter Grass em Behlendorf: uma entrevista inédita em português
24 de maio de 2010
Em maio de 2010, a editora carioca Calibán me encomendou a tradução, do espanhol, desta entrevista de Günter Grass ao jornalista Faustino F. Álvarez. O texto saiu originalmente no primeiro número da revista El Cielo de Salamanca (primavera de 2000) e entraria num livro de entrevistas que a Calibán preparava, graças ao intercâmbio que mantinha com a revista. Não encontrei registro de que esse livro tenha sido publicado, nem de outra versão da entrevista em português, e por isso a deixo aqui, com a tradução revista em 2026.
A conversa aconteceu em outubro de 1999, na casa do escritor em Behlendorf, no norte da Alemanha, poucas semanas depois do anúncio do Nobel de Literatura e na véspera do seu aniversário de 72 anos.
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Günter Grass, entrevistado por Faustino F. Álvarez
“Os gêneros literários nunca morrem; renovam-se continuamente. O romance é, na literatura, uma prostituta que busca sempre novas relações e chega inclusive ao incesto. A literatura, por sua vez, deita-se com qualquer freguês.”
Günter Grass
Às quatro da tarde, Günter Grass, o escritor do engajamento, senta-se em uma poltrona diante de uma xícara de café. Grass, em cuja firmeza moral alguns insistiam em enxergar um mito de antipatia, desmente por completo esse clichê injusto. Durante mais de uma hora e meia, consumiu uma caixa de fósforos na tentativa de acender um de seus quinze cachimbos: missão impossível, já que o fluxo apaixonado de sua fala sempre vencia o fumante paciente das horas de solidão.
Grass, cujo livro mais recente, Meu século, acaba de ser publicado na Espanha, foi laureado no mesmo ano com o Prêmio Príncipe das Astúrias das Letras e com o Nobel de Literatura de 1999.
Tenho a impressão de que, mesmo depois do Príncipe das Astúrias e do Nobel, sua rotina mudou muito pouco. É a isso que podemos chamar de autenticidade?
Não encaramos a notícia das premiações como um fardo, e sim como motivo de alegria. Mas conheço, por experiência, a comoção que se cria em torno desses eventos. No momento em que fui informado da concessão do Nobel, tinha hora marcada no dentista em Hamburgo; minha mulher e eu nos entreolhamos e dissemos: “Claro que vamos ao dentista.” Independentemente dos prêmios, pretendo continuar trabalhando e mantendo meu compromisso literário cotidiano diante da folha em branco de cada dia.
O senhor recebeu dois prêmios institucionais de imenso prestígio que, aos olhos de alguns, carregam certas conotações contraditórias: uma monarquia e o inventor da dinamite…
Acho curiosamente engraçado que eu, um republicano convicto, tenha tido ultimamente, ao lado de minha mulher, a oportunidade de apertar a mão de tantos reis. Nunca sei bem como me dirigir a eles: a vontade era chamá-los de “senhor monarca”. Desconfio que prefeririam simplesmente “senhor rei”.
Qual a sua opinião sobre a pretensão de Salamanca de se consolidar, em definitivo, como a capital mundial do castelhano?
Tudo o que colabore para descentralizar a cultura é positivo. A França sempre teve de lutar contra o peso asfixiante de Paris. Na Alemanha pós-Segunda Guerra, acertamos em cheio ao federalizar o país, e vejo a Espanha avançando por um rumo parecido. Por isso, o fato de o projeto de Salamanca não ter partido de Madri, mas sim da Universidade de Salamanca, tão vinculada a Unamuno e à tradição clássica espanhola, parece-me um grande acerto.
Romances, poemas, telas… a arte é a tábua de salvação para a crise deste fim de século?
Atribuir à arte essa função salvadora seria exigir dela mais do que pode dar. Podemos nos dar por satisfeitos se ela continuar existindo. Sempre que lanço um romance, leio nos jornais que esse formato está com os dias contados. Mas os gêneros literários nunca morrem; renovam-se continuamente. O romance é, na literatura, uma prostituta que busca sempre novas relações e chega inclusive ao incesto. A literatura, por sua vez, deita-se com qualquer freguês.
Sua relação com a política (até mesmo com líderes que lhe eram próximos, como Willy Brandt) sempre foi tensa. Manter esse distanciamento, essa atitude rebelde, é para o senhor um imperativo ético?
Minha intervenção na política se dá na condição de cidadão comum, e essa postura decorre diretamente da minha experiência de vida. Desde os dezessete anos sei o que significa ceder à sedução de uma ideologia. Minha visão de mundo foi forjada pelo colapso da República de Weimar, que naufragou tanto pela ação dos nacionalistas e nacional-socialistas quanto pela dos comunistas. Todos atacavam o Estado por princípio. A social-democracia era frágil demais para conter a crise por conta própria. Faltaram cidadãos dispostos a defender as instituições democráticas, e é daí que brota a minha militância.
Passados dez anos da queda do Muro de Berlim, quantas Alemanhas existem de fato?
Uma década após a celebração da queda do muro, é preciso admitir que a unificação plena não aconteceu. Nem o governo Kohl nem o atual souberam encontrar a chave para superar o abismo social e psicológico que ainda separa as duas metades da Alemanha.
O senhor vê no Papa Wojtyła a principal referência moral do mundo contemporâneo e, em especial, da Europa católica?
O Papa é, sem dúvida, uma figura simbólica, que beija o chão dos países que visita e tenta formular respostas aos dilemas da nossa época. No entanto, suas respostas recaem invariavelmente no dogmatismo. Na questão do aborto, por exemplo, ele se desresponsabiliza, no limite, pelo destino real da criança depois que nasce. Em razão de sua batina e de seu celibato, é natural supor que nem ele nem seus colaboradores da Cúria compreendam por experiência própria a realidade feminina, o que lhes tira qualquer autoridade para ditar como as mulheres devem agir.
E quanto aos Estados Unidos e à Rússia?
Bill Clinton não é o dono do mundo. A tragédia dos Estados Unidos é não conseguir enxergar nada além do American way of life, tornando-se incapazes de oferecer as respostas de que o planeta precisa, uma miopia perigosa. Já o cenário na Rússia, com ou sem Boris Iéltsin no comando, é de descalabro absoluto e desespero.
Que desfecho o senhor vislumbra para o caso Pinochet?
Receio que, dada a idade avançada e a saúde frágil, ele escape do banco dos réus. No entanto, sendo notória a sua culpa, direta ou indireta, pelas atrocidades cometidas durante a ditadura, seria fundamental que prestasse contas à Justiça. Seria também uma lição pedagógica para que futuros tiranos saibam que o poder não garante impunidade perpétua.
A transição espanhola para a democracia pode ser considerada exemplar?
A pedido de Willy Brandt, estive no primeiro congresso do Partido Socialista Espanhol após a legalização. Chamou-me a atenção ver que quase todos os discursos miravam apenas o futuro, fugindo de qualquer acerto de contas com a história. A nobre exceção foi Enrique Tierno Galván. Ao final da sessão, questionei Felipe González sobre o porquê de ignorar o passado, e ele me respondeu: “Não quero reabrir feridas.” Retruquei na hora: “Compreendo o receio, mas feridas históricas não saram com silêncio. Se vocês não encararem o passado, ele acabará cobrando a conta.” Não me parece que a Espanha tenha saldado essa dívida até hoje. E essa é, por excelência, uma missão da literatura. Max Aub foi uma das raras testemunhas que tiveram a coragem de revirar aquele passado para tentar entender o que se passou, e seu exemplo merecia ser seguido.
O senhor costuma dizer que conhece bem a Espanha e que tem amigos por lá. O que mais o fascina no país?
A tradição picaresca na literatura e seu impacto na cultura ocidental. Debati muito isso com meu amigo Juan Goytisolo. Vale lembrar, contudo, que a picaresca não é um patrimônio puramente ibérico, mas sim o fruto do encontro e da síntese fecunda entre o mundo árabe e a cultura hispânica.
Como funciona a sua rotina de escrita?
Escrevo de pé. Talvez por isso eu nunca tenha sofrido com dores na coluna, um mal tão recorrente entre escritores. Redijo à mão o primeiro, o segundo, o terceiro e, por vezes, até o quarto manuscrito de cada obra. Só quando o texto está maduro é que passo tudo a limpo em uma velha máquina de escrever Olivetti: não tenho computador nem sinto a menor falta de ter.
Tantas batalhas, a dureza da sua trajetória e essa obsessão em testemunhar a história: que tipo de homem tudo isso forjou em Günter Grass?
Há dias em que me sinto exausto. No dia seguinte, no entanto, já me pego de novo inflamado de indignação ou de entusiasmo. No fundo, acho que sou alguém bem mais pacato, apegado às miudezas da vida cotidiana; em termos pessoais, considero-me até meio enfadonho. Muito mais relevantes do que a minha pessoa física são os personagens que criei e o meu esforço em articular um socialismo democrático capaz de fugir tanto do reacionarismo cego quanto da ortodoxia comunista. Sempre me mantive avesso a qualquer cartilha dogmática, e só essa inquietação é capaz de manter um espírito em constante movimento.
Escrever um romance de oitocentas páginas dá mais trabalho do que pegar no pesado em uma mina?
Minha experiência de juventude quebrando pedras com certeza me deu estofo físico para encarar o esforço braçal que é erguer uma obra volumosa. Mas o que realmente conta é a solidão do ofício e o embate permanente com os personagens, com os quais vivo às turras.
Quem é o seu Deus, ou quem são os seus deuses?
Não tenho fé em deuses, mas nutro uma devoção profunda pelo mito de Sísifo tal como interpretado por Albert Camus.
Há quem sustente que o senhor, a exemplo de Camus, seria a voz dos derrotados…
Minha obra não se destina unicamente a esse público. Aliás, não acho que o escritor deva se limitar à ótica do vencido. A história oficial já é sempre redigida por quem triunfa. O papel da literatura é resgatar a totalidade das figuras tragadas pelas engrenagens do tempo, tanto no heroísmo quanto na fraqueza: heróis, canalhas, vítimas e mártires. O meu romance mais recente, Meu século, é uma tentativa concreta de colocar esse princípio em prática.
A que atribui as reações tão virulentas que seus livros costumam despertar na Alemanha?
Parte da crítica alemã sofre do vício de julgar minha ficção pelo crivo da minha militância ideológica. No exterior, por outro lado, costumam me ler estritamente como romancista, um alívio que sempre me reconforta.
A cerca de setenta quilômetros ao norte de Hamburgo e a passos do Mar Báltico fica o refúgio de Günter Grass: uma morada despojada, à beira da vereda que costeia o canal.
Em meio a um bosque fechado, tratado mais como mata nativa do que como jardim bem-composto, o autor de O Linguado e de O tambor montou um misto de estúdio e oficina onde escreve, pinta, esculpe e viaja nos próprios pensamentos, desfrutando da reclusão em longas caminhadas pelas redondezas.
Nas prateleiras, alinham-se traduções de suas obras para dezenas de línguas; num cômodo contíguo, acumula-se a desordem vivaz de seus apetrechos de artista plástico. Este homem (avesso à alienação do mundo, sobre o qual prefere apontar ora a lente de um microscópio, ora o estalo de um chicote) vive nas franjas rurais de Behlendorf, um vilarejo onde mal se avista uma lanchonete de estrada. Vive cercado de achados e de esculturas em cerâmica que modelou nos períodos de retiro da prosa.
Completa amanhã 72 anos: nenhum fio de cabelo branco, a pele rija, mãos vigorosas de artesão habituado à lida manual e enfeitadas, em dois dos dedos, por um anel grosso e outro liso: recordações modestas de suas andanças pelo mundo.